Ok, tenho que admitir: Fui criado com a avó sim!
Dizer que era criado com a avó na época do colégio era uma forma de zombar uns aos outros. Era equivalente a ser superprotegido, e então os garotos escondiam. Mas e daí? Dona Maria me ensinou muita coisa me transformando em quem sou hoje.
Nascida no interior do Rio de Janeiro, ela veio para capital ainda cedo para trabalhar. Conheceu meu avô, um português típico, imigrante que veio parar em terras tupiniquins fugindo da guerra. Álvaro aportou aqui sem nada, e nos deixou bem cedo. Lembro apenas dos seus marcantes olhos, azuis como o céu, uma careca que o ajudava a parecer ainda mais bravo, e a minha primeira lição na vida me foi deixada por ele: pessoas queridas nos deixam a qualquer hora.
Me lembro pouco dessa época, mas depois daquele dia as mudanças foram constantes. Nos mudamos para casa da vovó, logo depois minha mãe se separou e começou a trabalhar. Álvaro com uma vida dura de trabalho havia deixado alguns imóveis, entre eles, a casa onde eu moraria até os 18 anos.
Dona Maria era forte, determinada e agitada. Sempre falante, reclamava das coisas e tinha suas manias e princípios, os seus princípios.
As lições da Dona Maria não seguiam o mesmo padrão, eram variadas e começaram cedo. Um dia fomos ao mercado, paramos em frente a sessão de chocolates e ela me pediu para escolher um. Fiquei entusiasmado e o prontamente atendi. Logo depois ela pediu para pegar mais seis e fomos direto ao caixa. Eu era só excitação, mais dois irmãos, sete deliciosos chocolates selecionadíssimos por mim, logo, por puro mérito eu ficaria com três e no máximo dois para cada um dos meus irmãos. Enquanto caminhávamos de volta para casa, passou um menino pobre. Minha avó então chamou o garoto e, em tom imperativo, pediu para que eu lhe desse um dos chocolates. Hesitei, olhei para os chocolates, e pensei: a conta ainda era favorável...desde que minha mãe não pedisse um pedaço. Ou talvez minha irmã mais nova só merecesse um...
A caminhada foi longa, outros meninos foram aparecendo e a cada um eu recebia a mesma ordem. Ai só teve um jeito, fazer uma birra e me negar, peraí se compramos tantos porque afinal estamos entregando para esses horrorosos da rua que nem conhecidos eram.
Dona Maria então me explicou que não ficaríamos com nenhum. Como eu era franzino e muito magro, ela mesmo dizia que de tão magro contava as costelas só de olhar (sim, acreditem esse era eu), estávamos ali cumprindo uma promessa que ela havia feito. Como eu havia chegado vivo aos sete anos, tinha que distribuidor os sete doces para crianças pobres. Distribuir? Então porque eu escolher? Peraí? Vivo? Que diabos ela estava falando que mal há em se ter as costelas aparentes? Tive risco de não estar vivo naquele dia e eu não sabia? Claro que exagero de vó, mas enfim, os próximos doces foram uma emocionante diversão, eu queria escolher o mais pobres e merecedores daqueles troféus. Andamos mais do que o necessário e a reação de espanto seguida de felicidade dos meninos me colocou pela primeira vez em contato com esse estranho mundo, os outros. Era estranho como eles ficam felizes com tão pouco, era estranho reparar tanto nas pessoas pobres da rua e ter que achá-las, quando o certo parecia ser ignorá-las.
Alias depois disso, durante muito tempo achava que promessa era só coisa de avó mesmo, até chegar a uns 25 anos com uns 100 quilos e resolver chamar Cosme e Damião para uma conversinha. Galerinha, brothers, num precisava exagerar, né? Que tal um trato? Três anos seguidos de promessas para parar de engordar, mas os santinhos eram fies demais e não rolou. Dona Maria, adorava contar essa história.
As tardes Dona Maria, ex-costureira, se aventurava naquela máquina de costura com motor possante, dobrada naquele móvel madeira clara que adormecia em posição quadricular e se expandia para fora da mesa de forma tão espaçosa com um pedal negro lustrado e pesado de dois botões. Ploc, era o barulho da lâmpada detrás sendo acendida e ela tinha terminado de armar o equipamento. Próximo passo era a escolha da cor numa vasta opção de linhas, e seguia o complexo ritual que envolvia rebobinar parte para outro carretel, abrir compartimentos metálicos inferiores, o fio passava de lá para cá, e numa operação muito complexa finalmente a linha chegava a ponta da longa agulha. Óculos em posição, a última etapa do ritual estava comprido, agora era só o zunido do motor, o qual as vezes eu pedia para controlar através do pedal elétrico. Obvio que com a falta de sutileza necessária e tanto afoito, isso nunca dava certo a já tinha garantido um grande susto quando a máquina parecia querer voaria em cima de mim.
Outras formas de ensinamento da Dona Maria não eram tão intuitivas como a anterior, eram mais didáticas ricas de um apelo popular e quase sempre um requinte... vitoriano. E foi numa certa tarde dessas que depois de várias tentativas de colocar a linha na agulha, Dona Maria muito polida, após exclamar seus merdas e porras me pediu minha ajuda a terminar aquela tarefa. Me senti importante, e bravamente tomei frente da coisa. Tentativa um e nada, dois e nada, e assim foi até a frustração. Ela parecia se divertir me vendo repetir seus gestos de passar o fio na ponta da língua, tentar sem sucesso o que parecia fácil. Então ela pegou a linha da minha mão e me explicou com a profundidade freudiana: - Filhão, com cuspe e jeito se põe no cú de qualquer sujeito. Hãaa? Isso mesmo, não adianta só fazer isso, tem que arrancar com a ponta do dente o fiapo da linha. OK, Dona Maria, entendido que com técnica e determinação de consegue qualquer coisa.
Ainda me espanto como algumas das lições de Dona Maria, que pareciam incompreensíveis, mas que agora se fazem tão fortes e presentes tantos anos depois. É incrível como uma simples frase que parecia não fazer nenhum sentido ontem, as vezes sintetiza um problema e ao mesmo tempo uma solução hoje.
Muitos foram os anos, muitas são as memórias, muitas foram as lições nas mais vastas, improváveis e possíveis áreas, como política, bravura, religião, honestidade, caráter, sinceridade, objetividade e alma. Dona Maria me ensinou maestralmente o que é ter alma.
Dona Maria tinha amor incondicional por nós, e isso também demorei para entender. Aliás, demorei muito, muito mesmo para entender. Sua falta de medo, suas ranhetices, seus nãos, sua força eram muitas vezes sinônimos para amor.
Dona Maria pertencia ao que eu passei a chamar de núcleo da terceira idade. Era um grupo de amigas velhinhas( ops, perai... como dizia Dona Maria, velho são trapos, então, idosas) e viviam juntas o que havia de comum em suas idades. Tomavam café juntas, faziam excursões juntas as vezes,iam para igreja juntas. Bom no caso da Dona Maria apenas para tirar bons cochilos, pois como ela dizia ao ser cutucada pela minha mãe, - háaaa, me deixa já conheço essa bobajada toda de cor. Alias essa também foi, mais uma lição, já que segundo ela, ia até a igreja apenas porque se sentia bem em estar lá, o demais era conseqüência, caso contrário seria mais uma das muitas fofoqueiras que lá rondavam.
Dona Maria era ativa e também determinada, ninguém segurava ela. Lembro que depois da Dona Rosa, suas amigas foram falecendo uma a uma, ou adoecendo. Eram tantos enterros e visitas a hospital que as vezes não conseguia acompanhar quem estava dentro ou fora. A Lia a mais viajada, ativa, saudável e culta de todas ficou doente. Em poucos meses tomei um susto ao vê-la. Era uma senhora grande, elegante e vaidosa e lá estava um ser pálido e sem brilho. Dona Maria que era ativa, cuidava dos quatro cães que já chegou a ter e mais outros muitos gatos com agilidade e energia, subia e descia as escadas dezenas de vezes no mesmo dia, preparava o almoço e não deixa de ir ao supermercado todos os dias caminhando para comprar algum item , agora se queixava muito. Teve um primeiro tombo e veio a falta de equilíbrio que obrigou minha mãe acompanhá-la sempre em todos os lugares, mas antes de sozinha nunca mais, alguns outros tombos.
Até quando errava feito, Dona Maria me ensinava o certo. Estava me ensinando o que é ser humano e suas consequências. Pouco tempo depois faleceu a Dona Lia, e ai as coisas começaram a ficar realmente estranhas. Dona Maria era turrona e determinada, decidiu que não ficaria ali à mercê da vida e convocou a família toda para dizer: – aqui está, já separei o dinheiro do velório, vou reformar o meu túmulo e serei a próxima. Não vou dar trabalho para ninguém.
Depois de muitas idas e vindas em hospitais, a energia se foi e ficou apenas um olhar vago e um sorriso esquelético irreconhecível. Dona Maria era determinada, turrona, teimosa e se recusou entender que aquilo era depressão. Há quase um ano, Dona Maria cumpriu o que havia decidido com tanta determinação. Morreu em paz.
PORRA VÓ, PRECISAVA SER TÃO TEIMOSA ASSIM?